Durante a adolescência ocorrem transformações físicas e emocionais que preparam a criança para assumir um novo papel perante a família e a sociedade. A criança desenvolve-se, amadurece e passa a usufruir de sua sexualidade, firmando sua identidade e buscando um par. Esse processo vem acontecendo cada vez mais cedo. A professora do mestrado em enfermagem, Christine Baccarat de Godoy Martins, que recentemente publicou uma pesquisa sobre a vida sexual dos adolescentes, falou sobre os anseios, as conquistas, os mitos e as inseguranças desses jovens.
Como surgiu a idéia desse trabalho?
A idéia surgiu frente aos índices, cada vez mais crescentes, de gravidez e doenças sexualmente transmissíveis entre os adolescentes.
Quais foram os objetivos?
Nós tivemos dois objetivos principais: primeiro levantar o perfil desse adolescente em relação a sexualidade e em diferentes aspectos, e também desenvolver oficinas de prevenção.
Quem inicia a vida sexual primeiro? Meninos ou meninas?
Na nossa pesquisa foram os meninos. Outros estudos também apontam os meninos. A faixa etária para os meninos é de 13 a 14 anos para iniciarem a vida sexual e das meninas é de 14 aos 16 anos.
Por que essa diferença?
Acredito que é uma questão cultural e social. Desde pequenininho vemos a liberdade que é concedida aos meninos e um maior rigor com relação às meninas.
Existem outras diferenças entre esses dois grupos?
Sim. Por exemplo, a 1ª relação sexual de uma menina é com o namorado, ou seja, com um vínculo afetivo. Para os meninos não! As relações são com qualquer pessoa, com uma “ficante”, “paquera”. Uma relação eventual. Essa questão da afetividade, eu acredito que seja a principal diferença.
Podem ocorrer mudanças físicas no adolescente depois de uma relação sexual?
Existe um grande tabu ao redor disso. Inclusive, tem uma brincadeira entre os meninos nas escolas, que eles ficam tentando reconhecer as meninas que já estão em atividade sexual pelo andar, pelo desenvolvimento do corpo. Mas não há nada provado cientificamente. Na verdade, o que muda é o próprio processo da adolescência, é o crescimento do corpo, desenvolvimento das glândulas, a atividade hormonal. Mas não por que já está em atividade sexual.
A escola ainda se mantém distante desse assunto?
A escola tem feito um grande esforço para tentar acompanhar a evolução dos tempos frente a sexualidade. Só que ainda aborda o tema de forma tradicional. É preciso trabalhar a sexualidade de forma dinâmica, participativa, para que o adolescente se coloque e a gente possa orientá-los a partir de suas experiências.
E como são essas brincadeiras, oficinas que vocês fizeram nas escolas?
Trabalhamos com grupos de 5 a 10 adolescentes, para que não haja inibição. Eles querem aprender, tirar dúvidas e muitos nos dizem q esse foi o único momento em que eles puderam conversar abertamente sobre sexo.
As campanhas de prevenção a AIDS e DSTs são eficazes entre eles?
A gente observa que não basta dizer pra eles que é preciso usar o preservativo. Precisamos ensiná-lo a usar. Nas nossas oficinas, nós simulamos, por meio de uma brincadeira, a colocação de um preservativo e a gente observou a quantidade de erros que eles cometem. Não prestam atenção na integridade do invólucro, se contaminam na hora de retirar por que não sabem a maneira adequada de fazer.
O preservativo é utilizado pelos adolescentes?
Apenas 30% das meninas usam preservativo em todas as suas relações, e 60% dos meninos usam camisinha. As meninas dizem que tem vontade de pedir para o companheiro utilizar, mas a inexperiência, ou até por querer realizar o ato em si, se esquecem. Entre outros fatores, tem ainda o fator econômico, impossibilitando a compra dos preservativos.
Eles não procuram preservativos nos postos de saúde?
Na verdade, eles não possuem a informação de que os postos de saúde distribuem preservativos.
Em caso de dúvidas, a quem esses jovens recorrem?
Na nossa pesquisa, eles recorrem aos amigos, que também não tem muita informação, ou até nenhuma. As relações em casa e na escola ainda têm uma distancia que esse projeto quer tentar diminuir. Esses assuntos devem ser tratados com profissionais que possam encaminhá-los com responsabilidade.
Qual o significado de uma relação sexual para esse adolescente?
Eles não possuem informação nem maturidade para lidar com a sexualidade tão precoce. Mas para as meninas uma relação sexual tem muito a ver com um carinho pelo parceiro, e os meninos encaram a situação com indiferença. É muito importante a conscientização desses jovens, para que os índices de DST e gravidez possam diminuir.
Por Juciara Santos
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